Queridos Mel e Caio,

Gostaria de ter boas notícias para dar-lhes hoje, mas não trago as melhores : eu estou morrendo.

É nostálgico e triste voltar a este blog e constatar que aqui ficaram registradas lutas e vitórias contra o grande vilão da minha vida, a dor.

momentos de prazer aqui foram conquistados durante a escrita, e fora daqui, momentos de prazer como o prazer de amamentar, de fornecer alimento em vez de se alimentar  constantemente, o tempo todo para aliviar a dor.

estou morrendo porque apesar de ter encontrado um porto seguro algumas vezes, ele durou pouco. cá volto eu com minhas dores no joelho, infecção urinária ininterrupta, dores nas costas, vergonha, vexame, meus olhos que adquiriram uma tristeza que jamais vi igual. A tristeza de quem não acredita mais no futuro e está desesperado.

Sei que ando procurando socorro de todos os lados, procurei clínicas de gastroplastia, tenho pesquisado sobre remédios. Se fosse há uns anos atrás talvez eu conseguisse pensar em seguir dieta e atividade física, eu conseguiria nadar de vagar até a superfície, mas o fato é que agora não dá: eu estou me afogando e agora agarro de forma inconsciente em tudo que me parece apoio. Mais e mais dor me levam a buscar mais formas de alívio: álcool, cigarros. Eu perdi a capacidade de ver futuro para mim além da dor de existir e de ter sempre algo na boca, como uma droga, algo que me tirasse um pouco do ar.

Quando criança eu passei por coisas traumáticas. Vi minha mãe ser espancada até sofrer um aborto espontâneo, fui espancada até desmaiar aos 3 anos.  Este é o passado triste que deixei para trás mas hj revisito-o. Eu não tenho completa culpa da forma como estou hoje. nem eu e nem nenhum obeso, eu diria, fomos todos vítimas de uma vida cruel, porém ao mesmo tempo fomos todos algozes do que fizemos com nossos corpos. Por que aprendemos a nos maltratar tanto?

Meu paladar é doente. gosta tanto de coisas doces e açucaradas. Não tem fim. Os doces me dominam completamente, me fazem entrar num estado de torpor onde, surpreendentemente não há cheiro, não há gosto, não há movimento, não há memória. Há um alívio temporário capaz de durar alguns segundos. Quantos segundos duram uma mordida com uma deglutição rápida e tão veloz que quando acaba, não sei onde estou?

Eu sou o ser que arruma cozinha e come, que lava a louça e come, que anda pela sala e come, que na hora do almoço come e depois, culpada, derrotada, infeliz, se deita para dormir- não antes de chorar um pouco. É assim que me encontro, meus queridos. é o fundo do poço e ao mesmo tempo é tão banal que comida tenha me trazido até aqui.

Há muitas coisas bonitas e que amo em vocês, eu gostaria de estar inteira para aproveita-los e não com este vício que me devora pela metade, que come minha energia, digere meus sorrisos e minha capacidade de estar bem. Este é o fundo do poço e aqui não existe aconchego, existe apenas uma mulher, naufragando e em busca de uma oportunidade de suspiro. Eu preciso urgentemente de ar e depois, se possível, eu preciso tomar um fôlego e descansar. Sem olhar para trás neste medo que me consome , medo do meu passado e de minhas histórias tristes mas vislumbrando um futuro possível e de paz.

Escrevo como quem implora a mim mesma por uma chance. Eu preciso me dar e estar apta para resistir aos comandos involuntários que minha dor me causa. Preciso de energia para enfrentar meus dias difíceis, mas utilizar esta energia do jeito certo.